Escutar é um procedimento: o que a psicoterapia ensina para uma consulta de quinze minutos
Um estudo publicado em 2019 cronometrou: o médico interrompe o paciente em 11 segundos, e só em pouco mais de um terço das consultas pergunta o que ele veio buscar. A psicoterapia tem duzentos anos de técnica sobre isso — e boa parte dela cabe em quinze minutos.
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A objeção vem antes da primeira frase: eu não tenho tempo de escutar. É verdade sobre a agenda e mentira sobre a escuta — porque escutar não é ter uma hora. É saber o que fazer com os primeiros trinta segundos.
Onze segundos
Em 2019, Naykky Singh Ospina e colegas publicaram no Journal of General Internal Medicine a análise de consultas gravadas em atenção primária e em especialidades. Dois achados:
- A pauta do paciente — a pergunta sobre o que ele veio buscar — foi levantada em 36% das consultas.
- Quando o paciente começava a responder, era interrompido depois de 11 segundos, na mediana.
Onze segundos não é falta de tempo. É um hábito que ninguém ensinou a desfazer, e que custa caro: a queixa que importa costuma ser a segunda, não a primeira.
A anamnese já é uma escuta — só perdeu o nome
Jaspers separou em 1913 duas perguntas da clínica: a que procura causa e a que procura sentido (escrevemos sobre isso aqui). A anamnese, quando é bem feita, faz as duas ao mesmo tempo — e a segunda é a que o roteiro costuma comer primeiro, porque não tem campo no formulário.
Competência narrativa
Rita Charon, internista e doutora em literatura, deu nome a isso em 2001 num artigo da JAMA: competência narrativa — a capacidade de reconhecer, absorver, interpretar e agir sobre a história do outro. Ela não propôs um curso de empatia. Propôs tratar a história do paciente como o objeto técnico que ela é, com método e treino, do mesmo jeito que se treina um exame físico.
A diferença prática é esta: quem escuta com método não está sendo gentil. Está coletando dado que o exame não dá.
O que cabe em quinze minutos
Uma pergunta aberta, e o silêncio depois dela
"O que te traz aqui hoje?" e então esperar. A literatura é consistente: deixado falar, o paciente costuma encerrar sozinho em menos de dois minutos.
Perguntar se tem mais
"Mais alguma coisa?", repetido até a resposta ser não, é o que evita a queixa de maior gravidade aparecer com a mão na maçaneta.
Devolver em uma frase
"Deixa eu ver se entendi: ...". Trinta segundos que corrigem mal-entendido antes de ele virar conduta errada.
Reparar no que você sentiu
Pressa, irritação, pena, vontade de encerrar. Balint chamava isso de dado clínico, e costuma ser o dado que explica o impasse do caso.
Fechar combinando
O que vai acontecer, quando, e o que faz o paciente voltar antes. Consulta que termina sem combinação volta como telefonema.
E o que fica escrito
Escuta que não é registrada acontece de novo do zero na consulta seguinte. Não se trata de transcrever a conversa: trata-se de guardar as duas ou três frases que mudam a próxima consulta — o que a pessoa teme, o que ela já tentou, com quem ela mora.
É por isso que, no nosso sistema, o resumo da consulta chega pronto para você revisar, e não pronto para ser aceito. Quem assina o prontuário é quem atendeu.
Fontes
- Singh Ospina, N. et al. Eliciting the Patient's Agenda — Secondary Analysis of Recorded Clinical Encounters. Journal of General Internal Medicine, 2019;34(1):36-40.
- Charon, R. Narrative Medicine: A Model for Empathy, Reflection, Profession, and Trust. JAMA, 2001;286(15):1897-1902.
- Balint, M. The Doctor, His Patient and the Illness. Londres: Pitman, 1957.
- Jaspers, K. Allgemeine Psychopathologie. Berlim: Springer, 1913.