A persona e o jaleco: Jung, a sombra e o médico que adoece calado
Jung chamou de persona a face que a gente apresenta ao mundo. No consultório ela tem nome, cor e bolso: é o jaleco. O problema não é vesti-lo — é quando ele deixa de sair, e tudo o que não cabe nele vai para um lugar que ninguém olha.
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Existe um gesto que todo médico conhece e quase ninguém comenta: o de arrumar o rosto antes de abrir a porta da sala. A notícia ruim que você acabou de dar fica do lado de dentro; quem entra agora merece alguém inteiro.
Esse gesto tem nome em Jung. Chama-se persona.
Persona não é máscara de mentira
Jung usava a palavra no sentido do teatro antigo: a face que se apresenta ao mundo, o recorte de nós que a função exige. Ela é necessária. Ninguém atende bem sem alguma persona — a calma que você apresenta numa emergência é o que permite ao outro não entrar em pânico junto.
O problema não é vestir. É não conseguir tirar — quando a pessoa passa a se confundir com a função, e o que não cabe na função passa a não caber em lugar nenhum.
A sombra é o que não coube
Jung chamou de sombra o conjunto do que fica de fora da imagem que se tem de si. Não é o mal: é o recusado, o inconveniente, o que contraria a história oficial.
No caso do médico, a lista é previsível e quase idêntica de um para o outro:
- o medo de errar, que não se diz na passagem de plantão;
- o cansaço que não é elegante admitir na frente de quem trabalha mais;
- o alívio quando o paciente difícil desmarca;
- a irritação com quem não adere ao tratamento;
- o luto por um paciente que morreu, e que ninguém considerou luto porque não era parente.
Nada disso desaparece por não ser dito. Sai pelo outro lado: pela insônia, pelo estopim curto em casa, pelo copo de todo dia, pela conta que não fecha porque cobrar dá vergonha.
O médico ferido
Jung voltou várias vezes ao mito grego do curador ferido — Quíron, o centauro que sabia curar e carregava uma ferida que não fechava. A frase mais direta dele sobre isso está nas Obras Completas:
É a ferida dele mesmo que dá a medida da sua capacidade de curar. Isto, e nada mais, é o sentido do mito grego do médico ferido.
C. G. Jung, Fundamental Questions of Psychotherapy (Obras Completas, vol. 16, §239) — tradução livre
É uma frase perigosa, porque é fácil lê-la como elogio do sofrimento. Não é. A ferida que ensina é a que foi olhada; a que ninguém olhou não cura pessoa nenhuma — atrapalha. A diferença entre as duas é, quase sempre, ter tido onde falar sobre ela.
Balint: o remédio mais usado do consultório
Michael Balint, psicanalista húngaro radicado em Londres, chegou ao mesmo lugar por outro caminho. Em The Doctor, His Patient and the Illness (1957), ele observou clínicos gerais por anos e concluiu que o medicamento mais frequentemente prescrito na clínica geral é o próprio médico — a pessoa dele, o jeito com que examina, o que transmite ao explicar.
E completou o raciocínio: se o médico é um remédio, então ele tem dose, efeito colateral e interação. E não existe bula. Foi para escrever essa bula, coletivamente, que nasceram os grupos Balint — encontros regulares em que um médico leva um caso que o incomodou e o grupo trabalha não a conduta, mas a relação.
- Não é supervisão: ninguém corrige a conduta clínica.
- Não é terapia de grupo: o objeto é a relação com o paciente, não a vida de quem fala.
- O que se procura é o que aquele paciente desperta em você — porque isso é dado clínico, e costuma ser o dado que explica o impasse.
O que dá para fazer
Ter um terapeuta seu
Não por crise: por manutenção. Quem trabalha com a dor dos outros precisa de um lugar onde a dor seja a própria.
Parar de se autotratar
Prescrever para si mesmo é a forma mais rápida de não ter um segundo par de olhos justamente no caso em que você é o pior observador.
Procurar pares, não plateia
Um grupo pequeno e regular vale mais do que um desabafo eventual no grupo de WhatsApp da residência.
Tratar o próprio cansaço como achado clínico
Se você anotaria no prontuário de um paciente, anote para você: quando começou, o que piora, o que já tentou.
Por que isto está aqui
O Domínio Médico Health existe para essas conversas: a exaustão que não vira diagnóstico, a culpa de cobrar, o paciente que não sai da cabeça. A gente já escreveu sobre por que começou por aí.
Fontes
- Jung, C. G. Fundamental Questions of Psychotherapy, em The Practice of Psychotherapy (Collected Works, vol. 16). A passagem do médico ferido é o §239.
- Jung, C. G. Two Essays on Analytical Psychology (Collected Works, vol. 7) — é onde persona e sombra são desenvolvidas.
- Balint, M. The Doctor, His Patient and the Illness. Londres: Pitman, 1957.
- The Balint Society — sobre os grupos e a ideia do médico como remédio.